ANOREXIA E BULIMIA

No mundo de hoje, a estética está se sobressaindo cada vez mais. Está nos programas de TV, revistas, academias, parques, praias, clubes, em muitos lugares. Mas o que seria o corpo ideal? Para muitas pessoas, o corpo perfeito é um que seja totalmente magro. E para chegar a esse modelo de beleza, tenta-se de tudo até que acaba virando uma obsessão. E tudo que envolve a mente e transforma o universo humano de forma exagerada, deve ser um alerta de que algo não está bem. Adquirir hábitos saudáveis são transformações benéficas, porém os “exageros” podem trazer sérios problemas. Com certeza já ouviram falar de anorexia e bulimia, mas talvez não deram a atenção necessária ao assunto. E como esse é um assunto muito específico da área de saúde, procuramos psicólogos e nutricionistas para nos esclarecer como é que tanto a anorexia como a bulimia causam mudanças psicológicas, biológicas e sociais muito severas.
Uma pessoa desenvolve quadros de distúrbios alimentares quando estrutura uma visão emocional distorcida de si mesma e visual de seu corpo. No caso da anorexia, a pessoa se sente gorda e não se enxerga magra. Na bulimia ocorre a mesma sensação e visão, mas acrescenta-se a culpa por ter comido o que considera “além da conta”. Conceitualmente, a anorexia nervosa e a bulimia nervosa são transtornos alimentares em que pessoas saem da normalidade em relação à alimentação, seja por exagero ou pela falta. Esses transtornos não apresentam uma causa especifica única. Alguns fatores, interligados, influenciam no desencadeamento  do transtorno como os fatores biológicos, psicológicos e sociais que contribuem para desenvolver sintomas de alterações na estrutura do pensamento. Essas alterações do pensamento deflagram fortes angústias, baixa autoestima e os distúrbios alimentares.

Segundo estudiosos do assunto, os principais componentes da anorexia nervosa que reforçam a busca por um emagrecimento incessante são: a baixa autoestima e a distorção da imagem corporal, levando pacientes a uma prática exagerada de exercícios físicos compulsivos, jejum prolongado ou mesmo o uso de laxantes e diuréticos como uma forma auxiliar para a perda de peso. Quanto à bulimia nervosa, por sua vez, caracteriza-se por grande ingestão de alimentos de maneira muito rápida e intensa associada a uma sensação de perda de controle acompanhados de métodos compensatórios para que o peso corporal seja mantido a qualquer custo. Rachel Fischetti explica que “por esse motivo, o paciente se engaja em comportamentos de purgação como vômitos autoinduzidos (em mais de 90% dos casos) ou fazendo uso de grandes quantidades de medicamentos (diuréticos, laxantes, inibidores de apetite), dietas e exercícios físicos, abuso de cafeína ou mesmo uso de cocaína. Para estes comportamentos, os indicadores são assustadores: quanto ao vômito, há registros de pacientes que chegam a provocar mais de 15 vômitos por dia; aqueles que tomam laxantes chegam a fazê-lo em doses que atingem 40 vezes o recomendado em prescrição médica ou, no caso dos exercícios físicos, se engajam em práticas intensas que podem chegar a 8 horas diárias de atividades, e tudo com um único propósito: compensar a quantidade de calorias ingeridas na compulsão”.
A Psicóloga Regina Slepetys alerta que as alterações na estrutura do pensamento são formadas por vários fatores pessoais e ambientais. “Quanto aos fatores pessoais temos que considerar como uma pessoa desenvolve sua estrutura emocional de acordo com sua genética e disposição (boa vontade). Quanto aos fatores ambientais consideramos qual a educação familiar e escolar recebida, como e onde essa pessoa vive e por consequência e principalmente, como processa toda essa interação dentro de si”.
Já Psicóloga Fernanda Libanore nos lembra que o ambiente social e cultural também é um influenciador direto. “A ênfase social e cultural no ideal a ser seguido leva à insatisfação corporal e à preocupação com a comida e com o ato de comer. A preocupação e busca pelo corpo perfeito intensificam a introjeção de insatisfação consigo mesmo”. Complementando, a Psicóloga Rachel Fischetti reforça que “normalmente, as pessoas querem fazer parte de um circulo social. Com isso elas automaticamente se sentem obrigadas a seguir o padrão imposto pelo mesmo e isso tem relação com a personalidade de cada um. Por exemplo, uns querem ser fitness o que pede um corpo musculoso, outros magros a todo custo. Há uma cobrança social considerável no que diz respeito ao padrão corporal e, para atingir o resultado físico desejado, as pessoas acabam desenvolvendo esses transtornos alimentares”.
Biologicamente, o indivíduo pode apresentar possível tendência genética ao controle de impulso fraco, instabilidade emocional e traços perfeccionistas. Estas características afetam psicologicamente o indivíduo, causando diminuição do senso de controle pessoal e autoconfiança, levando-o à baixa auto estima, insegurança, imagem corporal distorcida e empobrecimento afetivo. Devido ao deficit do controle de impulso podem ocorrer episódios de agressividade, podendo ser a ele mesmo ou ao outro. O ambiente familiar também pode ser um meio que ajude a desencadear o transtorno, seja como via de escape à algum problema nas relações, ou seja como tentativa de inserção às expectativas da família, relacionados a afetividade com as figuras parentais.
O tratamento da bulimia nervosa ou anorexia nervosa deve começar com a avaliação se existe ou não a indicação de internação, embora o diagnóstico da bulimia nem sempre seja fácil, porque os sintomas não são tão evidentes como os da anorexia. Muitas vezes a doença já atingiu um nível de evolução que o paciente já não tem mais condições de perceber o quanto ele está atentando contra a vida. Alguns casos, quando o indivíduo apresentar 70% abaixo do peso normal, certamente precisa de hospitalização. O tratamento ideal é multidisciplinar, com uma equipe composta por médicos, psicólogos, nutricionistas, pois trata-se de uma alteração comportamental que faz parte de uma neurose gravíssima. A psicoterapia, como sendo a especialidade que mais terá contato com o paciente, deve incluir a família e sua disposição em ajudar, pois o paciente corre real risco de morte. É justamente o que Fernanda Libanore alerta: “o tratamento psicológico é eficaz e deve envolver a terapia familiar e/ou terapias de grupo. Ambos os transtornos alimentares tendem a ser crônicos se não tratados. Durante a terapia é focada a aceitação e entendimento da causa da doença, para assim poder controlá-la. Trabalha-se na autoimagem, autoconfiança e autoestima. Há auxílio no direcionamento do comportamento em relação ao ato de comer e à forma do corpo, afim de correções à atitudes disfuncionais. Também é focado nas relações interpessoais a fim de melhorá-las”. Rachel Fischetti complementa “devemos abordar na terapia as imposições sociais e o impacto que a mídia tem na ditadura de beleza para o paciente”. Medicamentos antidepressivos podem ser úteis, especialmente se ocorrerem distúrbios como depressão e ansiedade associados ao quadro.Também pode-se indicar a suplementação de vitaminas, caso seja identificado que o programa alimentar não está suprindo as necessidades.

Perguntamos aos Nutricionistas Marcelo Ferreira e Lilian Canassa Terada se há alimentos que são mais ou menos indicados aos pacientes com bulimia e anorexia. A resposta foi enfática: “NÃO”. Porém quando o paciente apresenta um desses transtornos, deve-se oferecer alimentos gradativamente, pois o medo da comida é muito grande. O Nutricionista deve passar uma confiança muito grande a esses pacientes, explicando sobre os alimentos sugeridos no cardápio para que eles não tenham medo de consumi-los.
Do ponto de vista fisiologico, a abstenção de alimentos pode levar o indivíduo à morte pois a não absorção de nutrientes provenientes de uma alimentação balanceada começa a gerar uma série de problemas de saúde por falta dos macro e micronutrientes:
– baixa imunidade
– queda na produção hormonal, causando amenorréia
– pele seca e unhas quebradiças
– queda de cabelo
– diarreia
– feridas no esôfago
– cansaço
– amolecimento dos dentes
– perda de massa muscular e óssea
Por tudo isso, Regina Slepetys reforça dizendo que “mudar a estrutura do modo de pensar, extinguir os atos anoréxicos e bulímicos e ajudar o paciente e sua família a amadurecer emocionalmente é uma tarefa multidisciplinar, que demanda tempo e envolvimento de todos. O tratamento consiste em desconstruir um modo de pensar e construir outro, que seja melhor para todos”.
As pessoas precisam desenvolver a autoconfiança e a autoaceitação. Claro que o individuo tem o direito de escolher sua aparência, porém deve-se ter a consciência de que o importante é ser saudável, não se agredir, não violentar o corpo e a mente. Até o momento, não há evidências de métodos eficazes para prevenir patologias como a bulimia e a anorexia, porém se houvesse um empenho da sociedade, no que diz respeito a mudança de certos valores estéticos ligados ao culto do corpo e à magreza, já seria um avanço considerável nessa luta contra a ditadura da beleza.

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*Psicólogas:

– Rachel Fischetti: Psicóloga, Especialista em Psicologia Clínica Hospitalar com ênfase em Cardiologia pelo Hospitaldas Clínicas da Faculdade de Medicina da USP -CRP 06/103571. Site: http://www.rachelfischetti.com.br

– Regina Slepetys: Psicóloga Psicanalista, Pós-graduação em Psicoterapia Psicanalítica – USP.

– Fernanda Libanore: Psicóloga pela FMU. E-mail: fernanda.libanore@gmail.com

*Nutricionistas:

– Marcelo Ferreira: Nutricionista Esportivo e Funcional.

– Lilian Canassa Terada: Nutricionista Esportiva, CRN: 19696, Especialista em Controle de Qualidade dos Alimentos

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